domingo, 4 de junho de 2017

TODOS ESTÃO DESTINADOS A MORRER, de Natália Batista: um livro que desafia o medo da morte.




Quem é essa garota bonita de 18 anos que se põe a refletir sobre um tema tão profundo e filosófico como a morte? Provavelmente você está, neste momento, se fazendo esta pergunta e a curiosidade o levará a adquirir o livro para conhecê-la melhor.
Conheci Natália Batista no Colégio de Aplicação João XXIII, em Juiz de Fora, através do PIDET (Programa de Identificação e Desenvolvimento de Estudantes Talentosos) ligado ao Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Identificada com altas habilidades no campo literário, minha missão era ministrar oficinas literárias e apoiar as iniciativas dos alunos e alunas identificados. Em 2012 Natália já escrevia bem, mas o salto que ela dá, não só com construção da estrutura dos seus contos, mas também com a temática abordada no livro, mostra a importância desse trabalho  e me dá um orgulho muito grande e uma honra de ter, em algum momento, feito parte dessa história de sucesso.
Natália Batista divide seu tempo entre a leitura, a música e a dança. Em entrevista realizada no campus da UFJF na tarde do dia 30 de maio, ela declara: "o que mais gosto de fazer no meu tempo livre é viajar no universo dos livros e poder criar outros, com a escrita". Entre seus autores preferidos estão Edgar Allan Poe, Dostoievski e Augusto dos Anjos, mas ela navega por outros mares, quando tem a oportunidade de se envolver numa boa leitura.

TODOS ESTÃO DESTINADOS A MORRER

Por Ana Idalina Carvalho Nunes*

Acabo de ler esse livro instigante de Natália Batista, onde ela se mostra como uma observadora dotada de múltiplos olhos que conseguem abarcar as emoções e sentimentos de cada personagem por ela construído, a ponto de levar o leitor a sentir as suas sensações. Falta de ar, angústia, precisei dar uma pausa em determinado ponto da leitura para me refazer diante de uma narrativa marcada por descrições demasiadamente fortes.
“Todos estão destinados a morrer” traz a morte como desfecho de cada conto, reproduzindo o que ocorre na vida humana em cuja única certeza é a de que se morrerá no final. A autora encara a morte de frente e a reafirma na fala de cada um dos personagens, deixando claro que se trata de um desfecho inevitável. Essa verdade leva todos, indistintamente, à dor, ao medo e, não raro, também à sensação de pânico. A presença da morte nos contos de Natália Batista não se dá, entretanto, apenas no plano físico: a morte se faz presente  também no tempo de vida, através da angústia e da solidão que marca, sobretudo, a vida de jovens que, embora vivam rodeados de pessoas, sentem a  mais profunda solidão, fragilizados pelo preconceito, pelo abandono, pelo escárnio de outros jovens e adultos que se consideram enquadrados nos padrões sociais impostos. Os narradores de cada conto são profundamente observadores e vivem situações em que são vítimas de bullying, homofobia, baixa autoestima, em um cenário que, algumas vezes, se constitui como os “corredores mortificantes “ de escolas escuras e cinzentas onde estudam. O conto “Para sempre”, por exemplo, começa com a autodescrição de Carlos,  um jovem homossexual :
“Sou uma pessoa tímida, talvez até invisível para aqueles que são absortos em suas vidas, contudo gosto de observar as pessoas, cada um com seu jeito único de ser. É fascinante, eu as vejo amando, brigando, odiando, chorando, rindo. A vida é incrível, porém sou apenas uma pessoa à parte dela, observando todos os outros vivendo, estou fora de tudo, sou um observador, que também quer viver, mas ainda não achei nada que fizesse a vida valer a pena” (p. 22)

A autora tem uma percepção da dor que marca a existência humana e a empatia está presente em cada página, a ponto de ser impossível traçar um limite entre o real e o fictício. Eu diria que a autora consegue se fazer presente no cerne da personalidade de cada personagem, os mais diversos:  do assassino à vítima, do agressor ao agredido. Ela dota alguns desses personagens com o  desejo comum  de impedir a dor, de prever a catástrofe para impedi-la, de colocar-se em risco para salvar o outro, de mudar o mundo.  
Além do medo disseminado pela mídia que, na busca pelo lucro, promove uma verdadeira intoxicação emocional naqueles que estão sintonizados diariamente com os meios de comunicação,  mais de um dos narradores fala da escola como um espaço escuro, cinzento e, no conto abordado acima, até como uma espécie de prisão. Assim sendo, o livro também aponta para essa necessidade de humanizar a escola e colocar o aluno acima dos conteúdos programáticos. Os personagens dos contos estão dentro dessas escolas e vivenciam problemas como alguns aqui relatados e talvez a morte abordada no livro possa ser também um grito que busque desconstruir esse mundo assustador, solitário e sem perspectivas afetivas, que insiste em se manter preso a padrões que são do século passado. Os heróis e heroínas presentes nos contos de Natália Batista buscam isso: colocar o humano acima de tudo, enxergar o outro, colocar-se no lugar do outro e construir um espaço de trocas, de alteridade, de solidariedade, de companheirismo e alegria.
            Entre as metáforas que inundam os contos dessa jovem escritora, é interessante perceber o peso da subjetividade presente. No conto “Um simples hotel”, o narrador personagem, um homem já adulto, descreve a fachada do hotel onde se hospeda: “O letreiro, onde antes se lia com clareza a palavra hotel, foi ficando velho e acabou queimando todas as vogais, e em uma luta de pisca-pisca, tentava manter as consoantes acesas” (p. 60). Ou seja, a comunicação está obsoleta, a sonoridade das palavras se perdeu e mesmo o som seco das consoantes pisca, tentando manter um mínimo de compreensão do que se quer transmitir. A falta de comunicação talvez seja a escuridão total,  Na página seguinte, o narrador fala  de paredes azuis apagadas que contrastam com uma cortina escarlate (vermelho muito vivo). O azul apagado é a solidão, cor propícia para a reclusão e para o estudo, para a reflexão, condição que marca o personagem deste e de outros contos. Em contraste, a dor, o vermelho vivo do sangue que se derrama de corpos em vários outros contos. O vermelho do sangue e da dor que impregna a solidão e a angústia dos jovens do século XXI. E é interessante esse conto, ainda nos detalhes em que a autora, consciente ou inconscientemente, traz características psicológicas por meio da descrição física de pessoas e ambientes, como é o caso da jovem com quem o homem se depara no elevador e que, segundo ele “parecia ser bem frágil, como uma boneca de porcelana destinada a se quebrar em qualquer tipo de impacto que receber” (p. 61). No final do conto, ela é morta pelo homem e o motivo do assassinato é a semelhança psicológica existente entre os dois: ou seja, a menina é o próprio homem em sua pureza, e ele mata essa fragilidade e essa pureza, para se livrar da vulnerabilidade. Ele busca o poder sobre todos, e a sensação de poder é presente quando ele percebe o medo e a súplica no olhar de suas vítimas. Ou seja, a opressão se faz pelo medo da vítima, o prazer do opressor é conseguir disseminar o medo e diminuir o outro até a morte.
Natália tem uma percepção apuradíssima do mundo em que está inserida, e se posiciona diante das injustiças sociais, diante da desconsideração da dor humana. Como a personagem desobediente da  história do Barba Azul, ela  pegou a chave e abriu a porta  do quarto proibido. E agora o quarto não se fecha mais e a chave sangra sem parar. É isso! Impossível para quem é inteligente, sensível, observador e reflexivo, perceber a dor humana e seguir sem olhar para traz. Dessa forma é que Natália se torna a heroína que, dentro ou fora dos seus contos, busca a solução para os problemas sociais e assume seu papel no mundo.
Aconselho a todos, jovens e adultos, a leitura desse livro. Não apenas folhear suas páginas superficialmente, mar mergulhar nas reflexões que cada conto promove. Saber que existem jovens com esse olhar maduro e com um talento literário tão grande é muito animador.  Eu vejo vestígios de Dostoiévski na escrita dessa autora, eu vejo uma jovem que encontra, na leitura, a forma de  mostrar o mundo que ela percebe. Parabéns, Natália! Além de tudo, é uma grande honra estar presente neste momento especial da sua jornada e uma grande emoção ver meu nome incluído  nos agradecimentos.

BATISTA, Natália.Todos estão destinados a morrer. Rio de Janeiro: Pendragon, 2017. 90 p. 
Preço do livro: 20 reais 

Link para compra do livro: 
http://www.lojapendragon.com.br/loja/produto.php?loja=492765&IdProd=55&iniSession=1&585c01288968a

Email da autora: nataliaplbatista@yahoo.com.br

* Escritora, professora de Filosofia com especialização em Filosofia, Cultura e Sociedade e mestrado em Ciências Sociais, com pesquisa no campo da Antropologia Social.

domingo, 8 de março de 2015

Grupo "Cantáteis" - "Beijar, ficar e outros verbos adolescentes"

sábado, 21 de fevereiro de 2015

UM LIVRO PARA LER E SE ENCONTRAR



BEIJAR, FICAR E OUTROS VERBOS ADOLESCENTES


112 páginas
Formato: 14 x 21
Edição da autora
ISBN: 978-85-918218-0-8
Apoio: Lei de Incentivo à Cultura Ascânio Lopes

O novo livro da escritora Ana Idalina Carvalho Nunes aborda assuntos do cotidiano adolescente relacionados à sexualidade, através de  um texto leve que trata o assunto sob o ponto de vista da protagonista Aninha, uma adolescente observadora e reflexiva que vive mais intensamente a vida interior do que a exterior. Seja na escola,  em casa ou nas festas com amigas, Ana está sempre refletindo sobre o sentido das coisas. Poderíamos dizer que se trata de um livro de filosofia – não aquela filosofia didática, mas um filosofia prática, contextualizada dentro do cotidiano adolescente.
            É um livro escrito de menina para meninas que, entretanto, desperta o interesse de meninos e de adultos, já que apresenta a percepção feminina de duas gerações: a  da personagem principal e a de sua mãe, que fala de si e de suas experiências nos  inúmeros diálogos familiares presentes no livro. Aliás, a mãe de Aninha talvez se torne, no final,  também a mãe do leitor – uma mãe moderna que, vivendo entre o emprego e a casa, consegue criar situações para o diálogo com os filhos, uma mãe alegre e jovial que, ao adoçar o café que prepara, adoça junto o coração da gente.
Vale ressaltar aqui a equipe de jovens talentosos que participa da edição: a capa é baseada em arte produzida por Letícia Nunes, 18 anos, estudante da UFJF. Letícia também assessorou a revisão do texto, no sentido de permear a linguagem de Aninha e de seus amigos com as expressões utilizadas  pelos jovens atualmente.  Os textos de apresentação da obra, nas orelhas do livro, são de Aíza Rezende e Lucas Batista,  jovens escritores alunos do Colégio de Aplicação João XXIII, identificados pelo PIDET (Programa de Identificação e Desenvolvimento de Estudantes Talentosos), do programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF.
A partir de março, o livro estará disponível em todas as livrarias.




terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Luciana d'Avila "Falando de Amor"

Amor sempre
     Mineira de Ubá, Luciana é a quinta geração de músicos da família d’Avila. Cantora, compositora e instrumentista, vem,há alguns anos, mostrando seu talento em bares, casas de show e festas com o propósito de crescer profissionalmente.

       Até onde é possível resgatar a história da relação desta família com a música, tudo começou com o tataravô, Fortunado de Abreu e Silva que tocava flauta ocarina e piano, e a quem também se deve a composição de uma valsa chamada “Tetéia”. O percurso da música começa com a Bisavó Ana Carolina de Abreu d’Avila, pianista de bela voz, que escreveu dois livros de música clássica, além de compartilhar seu talento com os filhos, ensinando-os a tocar piano e cantar. Entre estes filhos está o avô Milton de Abreu d’Avila, que, tocado pela música, desdobrou em aulas particulares o que aprendeu com sua mãe, despertando especial interesse pela flauta transversa. Há 74 anos, a flauta e um vasto repertório de choros e valsas fazem parte da vida do Sr. Milton.
      Do casamento de Milton e Maria Salomé vieram quatro filhos: Ana Lucia, Angela, Milton e Raul. Todos tiveram seu momento com a música, porém, apenas dois deles seguiram adiante. Raul, hoje é Doutor em flauta transversa pela Universidade Federal da Bahia, e Ana Lucia, é professora de piano e teclado, formada pelo Conservatório de Música de Rio Branco – MG.
      Filha de Ana Lucia, Luciana foi muitas vezes embalada ao som do piano da mãe, mas foi o avô quem lhe ensinou a tocar seu primeiro instrumento - flauta transversa, claro!   Não foi muito adiante com as lições e flauta e aos 8 anos se interessou em participar do coral do colégio onde estudava, Anglo. Mais tarde, os 13 anos, ingressou no coral do IBEU, escola de inglês que  cursava,  tendo  ambas  as  formações  a  regência o maestro Marum Alexander.
    João Eduardo, seu pai, não por herança, mas por gosto, sempre teve no violão um companheiro e aos 12 anos Luciana iniciou também uma história feliz com este instrumento.  Os bares de conhecidos  da família foram os primeiros lugares  a  se  apresentar  sem  compromisso,  sendo  mais tarde contratada por vários outros.
        Em 2001, morando em Juiz de Fora, participou do Festival de Música das Escolas Verbitas de todo o Brasil, conquistando o segundo lugar com uma composição própria - Não desejamos mal a ninguém – que foi gravada em CD junto aos outros vitoriosos.
     Em 2004 gravou seu primeiro CD, um pocket com cinco composições, intitulado “Luciana d’Avila – Ao seu lado” , este contando com oito composições próprias e cinco regravações, num projeto independente conseguiu reunir entre as participações especiais: Alceu Maia em “Linha de passe”, Lucina em “Minha fé” e um seleto grupo de músicos amigos. Sua irmã, Ana Carolina d’Avila Andrade, e seu primo, Danilo d’Avila Magalhães, foram seus principais parceiros nesta realização. O show de lançamento que ocorreu no dia 14/01/2005, no “Espaço Urca” – RJ teve a participação de outros excelentes músicos e atuais parceiros - Leco Carvalho (baixo elétrico) e Aldair Ribeiro (bateria).

      Em  2011, ao ser premiada, com a música Falando de Amor, no Prêmio Ary Barroso de Música, pode ter uma excelente prova de reconhecimento por seu trabalho e talento.

          Neste ano de 2014 a compositora e cantora lança seu segundo cd - “Luciana d’Avila – Falando de amor”, um projeto também independente, no qual são apresentadas onze composições, sendo duas de parcerias e duas regravações, contando com participações especiais de Bia Paes Leme em “Tudo perfeito”; Fernando César, Daniel Lovisi, Wagner Boratto em “Falando de amor” e “Saudade”; Juliana d’Avila, Izabela Vieira e Lucas Sales em “O que fazer”. 

Deixo aqui a minha preferida:

MEU AMOR

(Letra e música de Luciana d'Avila)

Meu amor, faz tanto tempo que não te vejo
Meu coração sente a sua falta
Bate num compasso descompassado e no presente ele sente
Que você gosta mais de mim
Meu amor, conto as horas pra te ver chegar
Mas se você não puder aparecer eu vou ao seu encontro
Porque meu coração  só falta gritar
Só falta chegar até, até, até aonde você estiver.

Meu amor, por favor não demore
Não demore tanto, porque senão esse pranto vou ter que enxugar
Meu amor, por favor, não demore, porque senão eu não vou saber esperar
Eu vou atrás, eu dou a volta, eu faço a hora passar
Só pra te ver, só pra te ver chegar
Meu amor, meu amor,
Eu te gosto tanto
Eu te quero tanto
Te desejo tanto
Meu amor, meu amor
Um dia eu vou te amar. 


Maiores informações sobre Luciana d'Avila através do site 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

MARCUS MARCHIORI

Marcus Marchiori e Ludmila Fam


Nascido em São João Nepomuceno (MG) no dia 28 de fevereiro de 1976, filho do teatrólogo José Luiz de Carvalho e da professora Sueli Marchiori Nunes, casado com a jornalista Ludmila Fam, Marcus Marchiori é um escritor que retrata a subjetividade do cotidiano em palavras que, dentro do texto, ganham novas nuances que tocam os sentidos do leitor. A impressão que se tem é a de Marcus Marchiori não é um escritor como todos os outros escritores - mas um andarilho sem pressa que, de tempos em tempos, para na beira da estrada para apontar  detalhes que passam despercebidos aos sentidos de pessoas  apressadas que buscam enlouquecidas o que está no exterior, quando na verdade o sentido está dentro delas mesmas. É com os olhos interiores que Marcus Marchiori percebe e denuncia o mundo à sua volta.

Em entrevista ao blog Chá com Leitura, Marcus Marchiori relata que começou a escrever na adolescência, motivado por uma professora que percebeu sua veia literária. O fato ocorreu em 1991: “fiz uma redação com o título" O Inverno" , minha professora elogiou tanto, que eu até acreditei que poderia mesmo estar bom”, conta Marcus que, em um bate-papo descontraído, nos deixa entrever um pouco mais de sua personalidade:

“O que me move é a vontade de tocar as pessoas, textos são como sementinhas que podem fazer as almas florescerem. Gosto de rock, e bem pesado, gosto de tudo que é novo. Nas horas de folga eu gosto de conversar, meu trabalho exige muita atenção, eu fico em silêncio mais de dez horas por dia e, quando estou de folga,  disparo a falar. Gosto de Piet Hein, o poeta que veio do frio.

Meu processo criativo é furacão. Quando paro pra escrever tenho sempre a mente vazia, digito a primeira frase e o resto vem depois. Costumo inverter o sentido, deletar a maioria das coisas e depois ordeno tudo com o mínimo de palavras possíveis. Tudo no máximo em 30 minutos - se demorar mais eu desisto e parto pra outro texto. Meu pai era um poeta , escritor, diretor de teatro, meu ídolo maior. Eu apenas tento ser um pouco dele”.

A SORTE

          A sorte é que eu nunca tive sorte! Desejei voar, desejei ser um super herói quando era criança. Se tivesse conseguido, eu não teria caminhado, eu não teria conhecido meus amigos de infância. Depois desejei ter tudo e, azarado que sou, acabei não conseguindo quase nada. Uma bicicleta velha e um par de calçados que não me permitiam ir muito longe. Se tivesse ido, eu não encontraria o acolhimento que encontrei em minha vizinhança. 
           Logo depois, na adolescência, um edema cerebral me fez trocar de colégio. O azar de adoecer me fez encontrar amigos que guardo até hoje. Desejei ter um bom emprego, mas dei azar e meu patrão não me entendeu. Se tivesse me entendido, eu nunca teria aberto minha empresa. Queria ter saído de casa. Se tivesse saído não teria curtido meu pai até o último momento.
          O azar sempre foi meu companheiro. Fiz dele o avesso. De vez em quando me perguntam se eu sou sem sorte mesmo. Não sei! Não sei mesmo! Só sei que tudo que eu quis não foi do meu jeito. Não seria mesmo. Azarado que sou, nunca consigo o que eu quero. Será que é falta de sorte? Ou será que a gente não consegue ver... que até o azar costuma nos levar para o caminho certo?
 

CASAL DE NAMORADOS

Daqui da minha janela eu observo, às 21:30, um casal de namorados. Daqueles que tem hora marcada para voltar pra casa. Para eles, o sofá é o chão da escada. Poderia ser uma calçada ou simplesmente uma parede para encostar. Para eles não importa o lugar, os corações ainda estão moles. Existe neles a pureza e a inocência e, acima de tudo, a simples vontade de ficar. O tempo vai passar, eles irão abandonar a escada e a rua não mais será um bom lugar. Neste momento, justamente neste momento, seus corações também irão mudar. É que a idade tem a mania de amolecer tudo ao nosso redor. A escada vira sofá, o chão vira tapete, a parede vira almofada. Por que então perdemos o entusiasmo? Por que perdemos a pureza e a inocência? A culpa é da idade! Ela tem a mania de amolecer tudo ao nosso redor. Pena que esta mesma idade tenha também a mania de endurecer nosso coração!


PAPAI NOEL EXISTE?
Poxa,  Papai Noel, na pós infância eu fiquei pau da vida quando descobri que você era pura ficção, que nunca iria apertar sua mão ou dar uma voltinha em seu trenó. Mas de uns tempos pra cá eu voltei a gostar de ti. Como pode, alguém que não existe, unir tanta gente, semear o perdão, reconciliar famílias, matar a fome, arrecadar tantas doações e sensibilizar tantos corações? Papai Noel, você é uma unanimidade. Papai Noel, você não existe! Acho que é por isso que consegue fazer tudo isso. Se você existisse seria diferente.Você seria simplesmente o Papai Noel! Um cara louco que anda só de botas, com uma roupa vermelha, barba branca e um saco nas costas.Você não existe! Ainda bem que não existe, se existisse seria perseguido, achincalhado e destruído. Digo mais, Papai Noel, seria bem possível que fizessem contigo o que fizeram com "aquele cara do crucifixo"! Aliás, a data é pra comemorar o quê mesmo? Se Papai Noel não existe, por que então não fazemos o Natal existir o ano inteiro?