domingo, 8 de março de 2015

Grupo "Cantáteis" - "Beijar, ficar e outros verbos adolescentes"

sábado, 21 de fevereiro de 2015

UM LIVRO PARA LER E SE ENCONTRAR



BEIJAR, FICAR E OUTROS VERBOS ADOLESCENTES


112 páginas
Formato: 14 x 21
Edição da autora
ISBN: 978-85-918218-0-8
Apoio: Lei de Incentivo à Cultura Ascânio Lopes

O novo livro da escritora Ana Idalina Carvalho Nunes aborda assuntos do cotidiano adolescente relacionados à sexualidade, através de  um texto leve que trata o assunto sob o ponto de vista da protagonista Aninha, uma adolescente observadora e reflexiva que vive mais intensamente a vida interior do que a exterior. Seja na escola,  em casa ou nas festas com amigas, Ana está sempre refletindo sobre o sentido das coisas. Poderíamos dizer que se trata de um livro de filosofia – não aquela filosofia didática, mas um filosofia prática, contextualizada dentro do cotidiano adolescente.
            É um livro escrito de menina para meninas que, entretanto, desperta o interesse de meninos e de adultos, já que apresenta a percepção feminina de duas gerações: a  da personagem principal e a de sua mãe, que fala de si e de suas experiências nos  inúmeros diálogos familiares presentes no livro. Aliás, a mãe de Aninha talvez se torne, no final,  também a mãe do leitor – uma mãe moderna que, vivendo entre o emprego e a casa, consegue criar situações para o diálogo com os filhos, uma mãe alegre e jovial que, ao adoçar o café que prepara, adoça junto o coração da gente.
Vale ressaltar aqui a equipe de jovens talentosos que participa da edição: a capa é baseada em arte produzida por Letícia Nunes, 18 anos, estudante da UFJF. Letícia também assessorou a revisão do texto, no sentido de permear a linguagem de Aninha e de seus amigos com as expressões utilizadas  pelos jovens atualmente.  Os textos de apresentação da obra, nas orelhas do livro, são de Aíza Rezende e Lucas Batista,  jovens escritores alunos do Colégio de Aplicação João XXIII, identificados pelo PIDET (Programa de Identificação e Desenvolvimento de Estudantes Talentosos), do programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF.
A partir de março, o livro estará disponível em todas as livrarias.




terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Luciana d'Avila "Falando de Amor"

Amor sempre
     Mineira de Ubá, Luciana é a quinta geração de músicos da família d’Avila. Cantora, compositora e instrumentista, vem,há alguns anos, mostrando seu talento em bares, casas de show e festas com o propósito de crescer profissionalmente.

       Até onde é possível resgatar a história da relação desta família com a música, tudo começou com o tataravô, Fortunado de Abreu e Silva que tocava flauta ocarina e piano, e a quem também se deve a composição de uma valsa chamada “Tetéia”. O percurso da música começa com a Bisavó Ana Carolina de Abreu d’Avila, pianista de bela voz, que escreveu dois livros de música clássica, além de compartilhar seu talento com os filhos, ensinando-os a tocar piano e cantar. Entre estes filhos está o avô Milton de Abreu d’Avila, que, tocado pela música, desdobrou em aulas particulares o que aprendeu com sua mãe, despertando especial interesse pela flauta transversa. Há 74 anos, a flauta e um vasto repertório de choros e valsas fazem parte da vida do Sr. Milton.
      Do casamento de Milton e Maria Salomé vieram quatro filhos: Ana Lucia, Angela, Milton e Raul. Todos tiveram seu momento com a música, porém, apenas dois deles seguiram adiante. Raul, hoje é Doutor em flauta transversa pela Universidade Federal da Bahia, e Ana Lucia, é professora de piano e teclado, formada pelo Conservatório de Música de Rio Branco – MG.
      Filha de Ana Lucia, Luciana foi muitas vezes embalada ao som do piano da mãe, mas foi o avô quem lhe ensinou a tocar seu primeiro instrumento - flauta transversa, claro!   Não foi muito adiante com as lições e flauta e aos 8 anos se interessou em participar do coral do colégio onde estudava, Anglo. Mais tarde, os 13 anos, ingressou no coral do IBEU, escola de inglês que  cursava,  tendo  ambas  as  formações  a  regência o maestro Marum Alexander.
    João Eduardo, seu pai, não por herança, mas por gosto, sempre teve no violão um companheiro e aos 12 anos Luciana iniciou também uma história feliz com este instrumento.  Os bares de conhecidos  da família foram os primeiros lugares  a  se  apresentar  sem  compromisso,  sendo  mais tarde contratada por vários outros.
        Em 2001, morando em Juiz de Fora, participou do Festival de Música das Escolas Verbitas de todo o Brasil, conquistando o segundo lugar com uma composição própria - Não desejamos mal a ninguém – que foi gravada em CD junto aos outros vitoriosos.
     Em 2004 gravou seu primeiro CD, um pocket com cinco composições, intitulado “Luciana d’Avila – Ao seu lado” , este contando com oito composições próprias e cinco regravações, num projeto independente conseguiu reunir entre as participações especiais: Alceu Maia em “Linha de passe”, Lucina em “Minha fé” e um seleto grupo de músicos amigos. Sua irmã, Ana Carolina d’Avila Andrade, e seu primo, Danilo d’Avila Magalhães, foram seus principais parceiros nesta realização. O show de lançamento que ocorreu no dia 14/01/2005, no “Espaço Urca” – RJ teve a participação de outros excelentes músicos e atuais parceiros - Leco Carvalho (baixo elétrico) e Aldair Ribeiro (bateria).

      Em  2011, ao ser premiada, com a música Falando de Amor, no Prêmio Ary Barroso de Música, pode ter uma excelente prova de reconhecimento por seu trabalho e talento.

          Neste ano de 2014 a compositora e cantora lança seu segundo cd - “Luciana d’Avila – Falando de amor”, um projeto também independente, no qual são apresentadas onze composições, sendo duas de parcerias e duas regravações, contando com participações especiais de Bia Paes Leme em “Tudo perfeito”; Fernando César, Daniel Lovisi, Wagner Boratto em “Falando de amor” e “Saudade”; Juliana d’Avila, Izabela Vieira e Lucas Sales em “O que fazer”. 

Deixo aqui a minha preferida:

MEU AMOR

(Letra e música de Luciana d'Avila)

Meu amor, faz tanto tempo que não te vejo
Meu coração sente a sua falta
Bate num compasso descompassado e no presente ele sente
Que você gosta mais de mim
Meu amor, conto as horas pra te ver chegar
Mas se você não puder aparecer eu vou ao seu encontro
Porque meu coração  só falta gritar
Só falta chegar até, até, até aonde você estiver.

Meu amor, por favor não demore
Não demore tanto, porque senão esse pranto vou ter que enxugar
Meu amor, por favor, não demore, porque senão eu não vou saber esperar
Eu vou atrás, eu dou a volta, eu faço a hora passar
Só pra te ver, só pra te ver chegar
Meu amor, meu amor,
Eu te gosto tanto
Eu te quero tanto
Te desejo tanto
Meu amor, meu amor
Um dia eu vou te amar. 


Maiores informações sobre Luciana d'Avila através do site 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

MARCUS MARCHIORI

Marcus Marchiori e Ludmila Fam


Nascido em São João Nepomuceno (MG) no dia 28 de fevereiro de 1976, filho do teatrólogo José Luiz de Carvalho e da professora Sueli Marchiori Nunes, casado com a jornalista Ludmila Fam, Marcus Marchiori é um escritor que retrata a subjetividade do cotidiano em palavras que, dentro do texto, ganham novas nuances que tocam os sentidos do leitor. A impressão que se tem é a de Marcus Marchiori não é um escritor como todos os outros escritores - mas um andarilho sem pressa que, de tempos em tempos, para na beira da estrada para apontar  detalhes que passam despercebidos aos sentidos de pessoas  apressadas que buscam enlouquecidas o que está no exterior, quando na verdade o sentido está dentro delas mesmas. É com os olhos interiores que Marcus Marchiori percebe e denuncia o mundo à sua volta.

Em entrevista ao blog Chá com Leitura, Marcus Marchiori relata que começou a escrever na adolescência, motivado por uma professora que percebeu sua veia literária. O fato ocorreu em 1991: “fiz uma redação com o título" O Inverno" , minha professora elogiou tanto, que eu até acreditei que poderia mesmo estar bom”, conta Marcus que, em um bate-papo descontraído, nos deixa entrever um pouco mais de sua personalidade:

“O que me move é a vontade de tocar as pessoas, textos são como sementinhas que podem fazer as almas florescerem. Gosto de rock, e bem pesado, gosto de tudo que é novo. Nas horas de folga eu gosto de conversar, meu trabalho exige muita atenção, eu fico em silêncio mais de dez horas por dia e, quando estou de folga,  disparo a falar. Gosto de Piet Hein, o poeta que veio do frio.

Meu processo criativo é furacão. Quando paro pra escrever tenho sempre a mente vazia, digito a primeira frase e o resto vem depois. Costumo inverter o sentido, deletar a maioria das coisas e depois ordeno tudo com o mínimo de palavras possíveis. Tudo no máximo em 30 minutos - se demorar mais eu desisto e parto pra outro texto. Meu pai era um poeta , escritor, diretor de teatro, meu ídolo maior. Eu apenas tento ser um pouco dele”.

A SORTE

          A sorte é que eu nunca tive sorte! Desejei voar, desejei ser um super herói quando era criança. Se tivesse conseguido, eu não teria caminhado, eu não teria conhecido meus amigos de infância. Depois desejei ter tudo e, azarado que sou, acabei não conseguindo quase nada. Uma bicicleta velha e um par de calçados que não me permitiam ir muito longe. Se tivesse ido, eu não encontraria o acolhimento que encontrei em minha vizinhança. 
           Logo depois, na adolescência, um edema cerebral me fez trocar de colégio. O azar de adoecer me fez encontrar amigos que guardo até hoje. Desejei ter um bom emprego, mas dei azar e meu patrão não me entendeu. Se tivesse me entendido, eu nunca teria aberto minha empresa. Queria ter saído de casa. Se tivesse saído não teria curtido meu pai até o último momento.
          O azar sempre foi meu companheiro. Fiz dele o avesso. De vez em quando me perguntam se eu sou sem sorte mesmo. Não sei! Não sei mesmo! Só sei que tudo que eu quis não foi do meu jeito. Não seria mesmo. Azarado que sou, nunca consigo o que eu quero. Será que é falta de sorte? Ou será que a gente não consegue ver... que até o azar costuma nos levar para o caminho certo?
 

CASAL DE NAMORADOS

Daqui da minha janela eu observo, às 21:30, um casal de namorados. Daqueles que tem hora marcada para voltar pra casa. Para eles, o sofá é o chão da escada. Poderia ser uma calçada ou simplesmente uma parede para encostar. Para eles não importa o lugar, os corações ainda estão moles. Existe neles a pureza e a inocência e, acima de tudo, a simples vontade de ficar. O tempo vai passar, eles irão abandonar a escada e a rua não mais será um bom lugar. Neste momento, justamente neste momento, seus corações também irão mudar. É que a idade tem a mania de amolecer tudo ao nosso redor. A escada vira sofá, o chão vira tapete, a parede vira almofada. Por que então perdemos o entusiasmo? Por que perdemos a pureza e a inocência? A culpa é da idade! Ela tem a mania de amolecer tudo ao nosso redor. Pena que esta mesma idade tenha também a mania de endurecer nosso coração!


PAPAI NOEL EXISTE?
Poxa,  Papai Noel, na pós infância eu fiquei pau da vida quando descobri que você era pura ficção, que nunca iria apertar sua mão ou dar uma voltinha em seu trenó. Mas de uns tempos pra cá eu voltei a gostar de ti. Como pode, alguém que não existe, unir tanta gente, semear o perdão, reconciliar famílias, matar a fome, arrecadar tantas doações e sensibilizar tantos corações? Papai Noel, você é uma unanimidade. Papai Noel, você não existe! Acho que é por isso que consegue fazer tudo isso. Se você existisse seria diferente.Você seria simplesmente o Papai Noel! Um cara louco que anda só de botas, com uma roupa vermelha, barba branca e um saco nas costas.Você não existe! Ainda bem que não existe, se existisse seria perseguido, achincalhado e destruído. Digo mais, Papai Noel, seria bem possível que fizessem contigo o que fizeram com "aquele cara do crucifixo"! Aliás, a data é pra comemorar o quê mesmo? Se Papai Noel não existe, por que então não fazemos o Natal existir o ano inteiro? 
 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

POETAS DA LIBERDADE - poesia nascida entre grades

Por Ana Idalina Carvalho Nunes


Aconteceu na manhã de 28 de novembro último, no Colégio Cataguases, o lançamento do livro "Poetas da Liberdade". Não vou me alongar em descrever a emoção que invadiu o ambiente, a satisfação em ver a imagem de meus alunos veiculada de uma maneira positiva, enfim, a alegria de colher os frutos de um trabalho realizado com muita dedicação durante este ano de 2013. Quero aproveitar este espaço para explicar, através da apresentação que escrevi para o livro, o que foi o trabalho. Também para divulgar os nomes da equipe que trouxe à luz o livro e os nomes dos alunos que participaram do projeto - com a transcrição de alguns poemas. É importante perceber que por trás das grades existe emoção e poesia, existem vozes que podem dizer coisas que tocam a nossa sensibilidade. Boa leitura!

 

Qual é o limite para o desenvolvimento humano? Quais as condições ideais para que uma pessoa desenvolva seus talentos e habilidades? Abrindo mão da explicação científica, na vivência do dia a dia é possível se surpreender com a capacidade de superação e de reinvenção da própria vida pelo ser humano. Especialmente quando se acende uma luz que permita a visão de um plano ainda não visto por ele. No caso deste livro, a luz é a arte, a possibilidade de expressão da subjetividade através da poesia, e o fator surpreendente é o interesse dos alunos pela produção poética, mesmo num meio tão improvável para manifestações artísticas como uma cela de presídio.

A arte liberta – não o corpo, mas a alma contida, os anseios, as angústias, a saudade, a voz. Sim, a voz - porque não é apenas o corpo que está preso; acima de tudo, o que o homem aprisionado percebe é que ninguém se dispõe a dar crédito às suas palavras, torna-se impossível se fazer ouvir – pelos superiores, pela sociedade, pelo mundo. E é neste aspecto que a situação prisional mais desumaniza o homem, já que, sem direito e manifestar-se enquanto ser pensante, enquanto ser ontológico que significa o mundo, ele acaba por se animalizar, desenvolvendo instintos mais que sentimentos. 

A aula de Arte da escola prisional de Cataguases devolver ao aluno a voz que ele julga perdida, içar - no mais profundo da sua subjetividade - a criança que um dia ele esqueceu com seus sonhos e projetos de vida. A arte,neste sentido, é apresentada como possibilidade de leitura do mundo e de si próprio, de exteriorização de pensamentos e sensações, de uma alfabetização no nível da sensibilidade e da forma de perceber o mundo à sua volta de uma maneira diferenciada da forma como antes percebia. “Poetas da liberdade” é, assim, o resultado deste trabalho ministrado no primeiro semestre do ano de 2013, onde os alunos tiveram contato com a arte literária, aprendendo técnicas de construção de poesia. Os poemas que integram este livro foram construídos em sala de aula, alguns sob tema livre, outros como produto de oficinas ministradas. Como exemplo, é possível verificar poemas oriundos de uma técnica em que os alunos deveriam imaginar-se sendo algum animal, entrelaçando a própria vida na vida deste animal. Alguns desses poemas retratam o poeta como sendo um escorpião, um pássaro, leão – apresentando um ponto de convergência entre a vida racional e a instintiva. Outros poemas brincam com a sonoridade de palavras, nomes de mulheres, como o poema “Marília”, por exemplo – que desmonta a palavra, remontando-a e apresentando seus diversos sentidos. 

 Vale ressaltar que, a partir deste trabalho, alguns alunos passaram a escrever diariamente, com o propósito de registrar impressões e vivências e reunir tais reflexões em livro. Cleiton Zulato e Marco Aurélio Machado representam dois desses alunos que vêm reunindo um número considerável de textos – sendo o primeiro no gênero poesia e o segundo no formato de prosa – com intenção de verem seu trabalho publicado e divulgado na sociedade. Outro aluno que reúne hoje aproximadamente seiscentas letras de música é Wanderlei Rosa Benfica. A publicação desses trabalhos pode ser muito representativa, se os autores se dispuserem a realizar um trabalho de divulgação, incluindo palestras que visem direcionar positivamente os jovens para uma vida saudável e construída sobre bases sólidas. 

A educação abre os horizontes e mostra novos caminhos possíveis, mas cabe à sociedade também humanizar-se para que o trabalho seja eficaz. Este prefácio pretende soar como um convite à humanização da sociedade, no sentido de refletir mais acerca dos problemas sociais que levam meninos e meninas a ingressarem nos presídios do nosso país. É comum a sociedade levantar bandeiras, clamando pela pena de morte, chamando crianças pobres de “projetos de marginais”. É claro que o discurso se modifica, quando alguns desses apaixonados defensores da punição têm um filho preso. A partir de então, fazendo parte da “sociedade dos excluídos”, torna-se possível conhecer realmente como é a situação de cárcere. Não se trata de criticar o sistema carcerário, mas de constatar que a privação da liberdade é, por si só, uma situação punitiva que abala a estrutura humana. 

É preciso deixar de lado a visão simplista e dualista de bem e mal, em favor de uma visão do humano em sua totalidade, capaz de boas e más atitudes. Todos, indistintamente, já pecamos – alguns contra a sociedade, outros contra si próprios. A grande diferença é que os que hoje estão presos são aqueles que, não tendo recursos financeiros para a conquista dos supérfluos possíveis para garantir a felicidade superficial da sociedade contemporânea, apelam para a ilegalidade, buscando saídas aparentemente fáceis para a conquista de status, poder, dinheiro. 

Aliás, o homem do século XXI está a cada dia mais perdido de si mesmo e, para sanar a dificuldade de enfrentar a vida real dura e fria como se apresenta, afunda-se no consumo de drogas legalizadas, suicida-se nos, esvazia os bolsos e a alma dentro dos shopping centers da vida, afoga-se em drinques nas noitadas de final de semana buscando, na vida superficial, o subterfúgio para fugir de si mesmo, de seus medos, de suas frustrações. Estão todos perdidos, os cidadãos e cidadãs do século XXI, dentro de uma sociedade de aparências, onde se vivem papéis apenas, onde cada um é a profissão que desempenha, onde é preciso se enfeitar, ser outro – já que, sendo o que se é, retirando a máscara, é impossível ser bem aceito socialmente. Estão todos perdidos em meio a caminhos apontados pelo sistema econômico para se atingir uma felicidade inalcançável. 

Analisando esse ponto de vista, responda: que caminho escolher quando não se tem recursos financeiros para comprar a felicidade, o respeito, a aparência socialmente aceita, o poder? Como se inserir em uma sociedade de via única, em que o meio de acesso tem tão alto preço? É proibido sonhar, é proibido desejar, é proibido ser feliz – se o indivíduo não tem talão de cheques, cartão de crédito, nome limpo na praça. Assim, no desejo do consumo, na busca de um caminho possível para a realização plena, na vontade de ser feliz, tem origem a escolha de um caminho situado “à margem da sociedade”, já que não é possível caminhar na via propriamente dita. Sob este ponto de vista, aquele que agrediu foi agredido antes, embora a agressão sofrida não seja merecedora de punição, já que é legalmente aceita, é civilizada e sutil. 

Não quero, com tal argumento, justificar atos violentos, não é esta a pretensão deste prefácio. A proposta é que a sociedade lance um olhar menos superficial para a situação social do país e que deixe de “apagar incêndios” e passe a identificar as questões em sua base. Quanto ao momento presente, seria muito produtivo que cada um fizesse a sua parte, despindo-se da superficialidade que impede de pensar a situação social como responsabilidade de cada um. Afinal somos nós mesmos a sociedade que tanto criticamos.

 *Idalina de Carvalho (Ana Idalina Carvalho Nunes), professora de Filosofia, Sociologia e Arte na Escola Prisional de Cataguases. Jornalista profissional (mtb 08283). Formada em Filosofia, com especialização em Filosofia, Cultura e Sociedade pela UFJF. Diretora-presidente do VENCER – Instituto de Valorização da Ética na Conduta e Relacionamentos. Escritora e poeta. 

 DA IDEIA ORIGINAL À PUBLICAÇÃO DO LIVRO

Quando surgiu a oportunidade de ser professora de Arte na Escola Prisional, uma questão me deixou um tanto perturbada: de que adianta oferecer técnicas, ensinar artesanato, quando a arte envolve muito mais profundamente o ser humano? Foi assim que me arrisquei a içar âncora na subjetividade dos alunos, a procurar resgatar o aspecto emocional - tão sufocado na situação de cárcere. Comecei pela música e pela poesia - lendo poemas de grandes poetas brasileiros, primeiro. Logo depois, explicando o que a Arte pode fazer por nós, falando da possibilidade de se tornar mais leve com o ato de escrever, liberando angústias, emoções diversas.  Complementei tais noções com aulas de técnica de produção de poesia.  

A ideia de publicar um livro nasceu, assim,  quando os primeiros poemas surgiram. Não é difícil empreender um projeto desses quando se tem familiaridade com o mundo editorial - e eu sempre estive ligada à área. Reuni os poemas, levei a ideia aos alunos e, com aprovação deles, montei um projeto e o apresentei à coordenadora pedagógica da escola prisional, Elaine Rafino. Faltava então apenas a aprovação do diretor do presídio, Alan Neves: era necessário que ele aprovasse a divulgação dos nomes dos alunos em livro. Ele aprovou e, a partir daí, fiz contato com a editora,solicitei orçamento, levando também para Roberto Catroli os textos para diagramação. Orçamento em mãos, era necessário conseguir verba para a publicação. Para isso, consegui apoio de várias pessoas que, juntas, patrocinaram os primeiros 100 exemplares do livro. Importante citar aqui os nomes desses patrocinadores que são, na verdade, os responsáveis pelo nascimento do livro: 

Maria da Glória Costa Reis (escritora e professora de Leopoldina);
André Silva Pimenta (professor da Escola Prisional);
Antonio Batista Pereira (vereador);
Cristiane Carvalho Nunes de Souza (tabeliã substituta cartório em GV);
Elaine Aparecida Rafino da Silveira (coordenadora pedagógica da Escola Prisional);
Elizabeth de Almeida Silva (Irmã Beth - programa Economia Solidária - SAS Cataguases);
Fernando Amaral (vereador);
Janaina Valverde  (professora da Escola Prisional);
Jaqueline Reboredo (professora da Escola Prisional);
Ana Beatriz Vieira (professora da Escola Prisional);
Luciana Nazar (professora da Escola Prisional);
José César Samor (prefeito de Cataguases);
José de Lelis Amorim (empresário);
Michelangelo de Melo Correa (vereador);
Pierangelli Mantovani Gribel (professora da Escola Prisional);
Raquel Pimenta Dias (professora da Escola Prisional);
Alan Neves Ladeira Rezende (diretor do Presídio de Cataguases);
Sandra Luzia Dias   (Forum Cataguases);

Ao receber um exemplar da primeira impressão do livro, no final de outubro,  o diretor do presídio, Alan Ladeira Neves, ficou muito  satisfeito com o resultado, envolvendo-se com a proposta de transformar o livro num projeto maior que envolvesse sua distribuição em escolas do município. Foi muito importante a participação dele - a grande repercussão do livro, na verdade, deveu-se ao envolvimento dele que, conseguindo apoio do empresário Marcelo Peixoto e do Dr. Pedro Américo Mariosa Júnior (Mariosa e Soldati Sociedade de advogados), triplicou a tiragem inicial do livro, trabalhando com afinco na divulgação do trabalho, montando o belíssimo evento de lançamento no dia 28 de novembro último. 
Foram essas as pessoas que trouxeram à luz o POETAS DA LIBERDADE, apenas estes cidadãos envolvidos que,  com a causa social, acreditaram que o ser humano é merecedor de confiança e que merece oportunidade de um recomeço.

Enfim, quem merece os parabéns pelo livro? Quem deve colher elogios? Todos, indistintamente! Parabéns a todos nós, que formamos essa equipe heterogênea que funcionou tão bem! O resultado está aí: o objetivo foi atingido! 

Vejo os poemas,a imagem  e os nomes dos meus alunos divulgados de uma maneira positiva. A cada um, o seu mérito! A cada um o seu troféu! A equipe conseguiu trazer à tona um belíssimo trabalho, é o que importa!É irrelevante divulgar quem fez mais ou menos, ficar observando quem aparece com maior ou menor evidência, importa o trabalho, como um todo! Quando o objetivo é promover o desenvolvimento social e humano, a primeira lição a seguir é a humildade - ficar em segundo plano para que o trabalho apareça mais que o trabalhador.

Obrigada a todos vocês! Estou muito feliz!

*Sou  professora de Filosofia, especialista em Filosofia Política pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), havendo apresentado  ao final do curso monografia intitulada "Criminalizar para punir: a dinâmica de neutralização da juventude pobre e negra do Brasil"- um estudo do Presídio de Cataguases, sob a ótica de Löic Wacquant,  Cursa mestrado em Ciências Sociais na UFJF, com pesquisa sobre os caminhos e possibilidades das religiões dentro do presídio de Cataguases.  Escritora com três livros publicados: Quase Pecado (2001), Meandros (2010) e Beijar, ficar e outros verbos adolescentes (2015). (Nota atualizada em 29 de janeiro de 2015).



  POETAS PARTICIPANTES DO LIVRO
Na foto: Wanderlei Rosa Benfica (poeta e rapper)

Airton Willian, Alan, Alexandre, Anderson de Souza, Anderson Martins, André Luiz, Andreia, Augusto, Bruno Izaltino, Carlos Henrique, Cleiton, Ednéia, Elison,  Emerson, Erasmo, Fabiano, Guilherme,  Gustavo, João Paulo, João Rafael, Joel, José Gomes, José Magno, José Ulisses, Júlio César, Júlio César, Kelson, Leandro, Leonardo, Luiz Fernando, Marcelo, Marco Aurélio Rodrigues, Marco Aurélio Machado, Maier Roberto, Milas, Nicson, Pablo, Rafael, Reinaldo, Renan, Romildo,  Vinícius, Viviana, Wanderlei Rosa, Wellington, Werles, Willian,Wilson Vagner. 

Confiram alguns poemas:

Tenho saudade (Ednéia Matos)

Tenho saudade da minha família
dos meus netos, das minhas filhas.
A noite  chega com a saudade...
chega e eu fico com o coração apertado,
com vontade de chorar.
Não choro porque vou sofrer
e se eu sofrer eles sofrem mais.
Finjo ficar alegre, não vejo a hora de estar
perto deles  para poder
ser feliz e sorrir... e sorrir mais.
Aí sim serei feliz.
Para sempre.


Poder (Emerson Soares)
 
Lutar
para ganhar.
Perder
e não esquecer.
Viver
para alimentar
a vontade de sonhar.

Vencer, acredite,
é poder.



Pássaro preso (Guilherme Peixoto)

Eu sou um pássaro impedido de voar.

Confinado com outras aves,

canto para espantar o sofrimento.

Sou um pássaro, sou um detento

engaiolado, cheio de sofrimento,

querendo bater asas

em busca de liberdade,

fugindo da maldade,

- maldade dos homens

que me prenderam sem razão.

mas de uma coisa ainda sei:

posso voar com o meu coração.

  
Escorpião (João Rafael Castro)

Eu sou escorpião:
com os meus hábitos
causo indignação.

Eu sou escorpião:
não sou mau,
mas me defendo
com veneno e ferrão.

Eu sou escorpião:
nem sempre
estou com a razão.

Eu sou escorpião
e sempre ando só
nas noites frias.
Vivo na solidão.



O que fui, o que sou (Joel dos Reis )

Fui a tristeza da noite,
hoje sou o brilho da lua.
Fui ao fundo do poço,
hoje sou a coragem do dia.
Fui a ovelha negra,
hoje sou a semente da vida.
Onde estou, me sinto vitorioso.
Sou um pássaro semeador
que adora o colorido das flores.
Voo entre as árvores...
minha alma baila ao vento
vestida de sentimento.
  

Sem título (José Ulisses Moreira)

Navego em um navio
cercado de grades
a procura de uma ilha
chamada de liberdade.

Quando você estiver triste
sem ninguém para conversar
não fique assim tão triste:
o sol sempre esteve sozinho
e nunca parou de brilhar.


Pássaro ferido (Leandro Severo)

Como um pássaro nasci,
querendo aprender a voar.
Tanto, tanto eu tentei,
caí pra lá , caí pra cá...
Num momento, quando olhei,
de um penhasco quis me atirar.

Correndo fui e pulei,
caindo, comecei a voar.
Quanto mais alto voava,
mais alto queria chegar.

Quando perto da nuvem cheguei,
não mais queria voltar.
Mas,  no tanto que voei,
minhas asas começaram a cansar.

Deslizando eu caí, não mais consegui voltar.
Quando aterrissei no chão
eu não mais pude andar.
Abri os olhos e vi:
na gaiola estava a cantar.
Não cantava de alegria,
cantava pra não chorar.


Fé (Leonardo Pinheiro)

Mais um dia eu acordei
Obrigado, meu Senhor,

pois as minhas orações
eu faço com muito amor.

O sol aquece a minha fé
e ameniza o meu sofrimento.
Só Deus sabe a  dor
que eu sinto aqui dentro.

A saudade aperta o meu peito
e sangra o meu coração,
mas existe a esperança
que me leva de volta para a rua.

De joelhos no chão,
vou agradecer ao meu Deus
por sair desta prisão.


 Sentimento (Marco Aurélio Machado)


Sentimento de fé,
sentimento de mãos,
sentimento que não fere
os pobres corações,
que é adquirido através de perdão.

Sentimento de alegria
em olhares brilhantes.
Em todos os corações
só há um sentimento
e todos o procurarão:
ele está perto de você,
entre um abraço e outro:
é o amor, irmão!



Meus dias em uma cadeia (Milas da Silva)

Escrevo este poema
sobre o dia a dia na cadeia:
cadeia é muito ruim,
mas ao mesmo tempo é boa
para poder refletir
sobre as coisas ruins
que aprontamos na vida
de muitas pessoas.


O tempo (Werles Dionizio)

Não tenho tempo! Meu tempo é pouco.
É tão pouco o tempo,  que o tempo não me dá
tempo para ver o tempo passar.
Não tenho tempo pra rir nem tempo para chorar.
O tempo é tão pouco, que não dá para ver o sol brotar.
Mas, neste pouco tempo, consegui pensar
numa grande e linda estrela
que veio no céu brilhar.
(minha filha)


Quem é você? 
(Anderson de Souza)


Quem é você, que nasceu de família pobre
e que, mesmo com pés descalços em rua de terra,
sonhou  em um dia ser nobre?

Quem é você, que insiste em dizer que é durão,
mas que, dentro da cela de uma prisão,
mesmo cercado de pessoas, sente solidão?

Quem é você, que luta com aquela lágrima
que teima em cair dos seus olhos de pedra?
Que, mesmo com um olhar de lástima,
briga como  guerreiro numa luta sem trégua?

Quem é você, que já pensou em desistir,
deixar  sonhos  de lado,  acreditando ser causa perdida
mas que com  fé e esperança,  decidiu persistir,
acreditando firmemente que existe uma saída ?

Você é aquele  que,  tendo uma vida nada fácil,
que,  tendo tantos motivos para ser descrente,
aos trancos e barrancos, continua seguindo em frente,
fazendo-se surdo ao que o outro diz,
acreditando que sua maior missão é ser feliz.