
Publicado no final de 2009, o mais recente livro de poemas do curitibano Edival Perrini é uma obra-prima em todos os aspectos. O projeto gráfico de extremo bom gosto marca a publicação com uma beleza incomparável que, no entanto, não se iguala à requintada poesia caracterizada pela concisão e pelas metáforas capazes de levar ao êxtase quem lê, permitindo um mergulho no mar interior - por vezes de água morna e viscosa, por outras de água fria a arrancar arrepios – contido em suas oitenta páginas.
São poemas que oferecem ao leitor um universo infinito de possibilidades, independente do foco de sua leitura, tornando gratificante a tarefa dos que se atrevem à análise literária e proporcionando aos que se arriscam às profundezas das águas, a possibilidade de sentir o que reside por baixo do visgo que torna o fundo de seu mar “molhado e liso e fofo e alado”: o pulsar de uma linguagem encurralada por sinais que denunciam sutilmente “um mar dentro do mar” humano, ora incontido no seu desejo:
Por frestas,
toco a luz que se escancara
para além destas treliças.
Por farpas,
tenho gotas de oceano
e sede, e sede,
e sede.ora sublimado na sua condição de elemento ou ser da natureza, com a sina de nascer e morrer:
A manhã
espessa de orvalhos
grita.
À tarde,
passo a passo,
recolho travas.Anoiteço
leve
como um quintal.e, por fim, surpreendido pelo renascer imprevisível e contínuo da vida natural que pulsa nos rios, nos mares, nas veias:
Entre o ver
e a certeza de que você está,
há um poço de prazer
e sobressalto.
No assalto deste instante
distraído mareante
me abasteço.Eu que sou o pedaço,
o bagaço,
solitário caroço abjeto,
com você
fruto completo.Poderia aqui, pelas janelas que a leitura abre, me alongar por muitas páginas comentando a estrutura perfeita dos escritos desse poeta, mas nada é mais instigante do que, como leitora apenas, me deleitar com a sensualidade natural e isenta de pecado de O olho das águas, um livro que prima pela sofisticação dos signos, da linguagem e da estética, oferecendo a quem se propõe a lê-lo a sensação de “Fazer-se ao mar como quem se joga num abraço, e respira”.
Confira alguns poemas de O olho das águas:
ENTRESSAFRA
O silêncio gesta o poeta
como a palmeira suas palmas.
Não há vento.
Falta uma senha que empurre,
entranhas afora,
a poesia.
sua palavra
chegou-me brisa,
e no aul
o céu era um pássaro
tocado,
nada desconfiei
e até inventei
amoras e especiarias
nada havia de convulso
ou obtuso,
até que desfaleci
na ventania
ESTRELA
Penetrar
a lua nova
pela linha do horizonte.
Depois,
aguardá-la sobre o mar
plena de enigmas.
O VENTO E A ACÁCIA
O vento mete-se por debaixo da acácia
busca intimidades,
estremece raízes.
Bailarino,
planta-a no ar
como se a árvore
fosse uma ideia,
uma raia,
uma boa-nova.
Depois o vento vai embora.
Do amarelo vértice
novo
(soluços da acácia sobre o chão)
permanece o espanto.
O vento borrifa de sal o rosto do bairro.
* Para saber mais sobre Edival Perrini, visite http://www.edivalperrini.com.br/
Pedidos deste livro para: edivalperrini@onda.com.br
Idalina de Carvalho é editora deste blog
3 comentários:
É sempre muito bom dedicar tempo à leitura de uma poesia tão rica como a do Edival Perrini.
Sinto vontade de memorizar todos os versos para dizê-los na hora certa, quando a cena interior cotidiana parece fundo para o poema.
Idalina
idalinadecarvalho@gmail.com
www.idalinadecarvalho.xpg.com.br
www.idalinadecarvalho.blogspot.com
A poesia está no ar, mas só existe se for partilhada. Abraço forte, Idalina.
Belo trabalho Idalina, bela iniciativa! Parabens!
Eu tb sou artista, musico e filho do mestre Edival!
Pai, vc é referencia!
Amo-te!
Com amor,
Claudio Perrini
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